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Espaço ACI

Braços abertos, Coração aberto

Artigos

Ir. Eileen FitzGerald, aci

Braços abertos, Coração aberto

Os braços abertos de Jesus na Cruz são uma das expressões mais eloquentes do Seu amor por nós. Por vezes abrimos as mãos para descrever a dimensão de algo: o tamanho ou a quantidade de uma coisa material, ou do nosso amor por alguém. A extensão máxima de que os nossos membros são capazes é de 180 graus, e foi isso que Jesus viveu. É como se nos dissesse: "Espero-vos de braços abertos", como o pai que correu de braços abertos para abraçar o filho "pródigo" (Lc 15,20). Promete-nos um acolhimento e uma aceitação totais, um abraço amoroso que dissolve a dor e a distância.

Apesar de ter sido feito prisioneiro pelas autoridades religiosas e políticas de Jerusalém e de ter sido obrigado a suportar um sofrimento horrendo, Jesus foi livremente para a morte: não se escondeu quando viu os sinais da conspiração contra Ele. "O Pai ama-me porque Eu dou a minha vida para a retomar. Ninguém ma tira; sou Eu que a dou livremente" (Jo 10,17-18). Fê-lo por amor a nós: misteriosamente, "pelas suas chagas fomos curados" (Is 53,5).

Fiel ao Reino de Deus, o Reino de justiça, de paz e de amor que tinha proclamado e posto em prática, depois de uma oração angustiada no Jardim do Getsémani, Jesus enfrentou os que se lhe opunham e não recuou quando O levaram para ser torturado e morto. No meio do horror, do sentido de abandono por parte dos mais próximos e até do próprio Pai celeste, pediu ao Pai que perdoasse aqueles que O executavam, confiou a Sua Mãe aos cuidados do discípulo amado, e entregou-Se totalmente ao Pai e a nós até ao Seu último suspiro. Os Seus braços abertos revelaram a força da Sua decisão no meio da Sua grande vulnerabilidade.

Confiou em que a morte não seria o fim. Desceu ao lugar dos mortos e ao terceiro dia ressurgiu vitorioso, trazendo consigo todos os que tinham morrido na esperança da salvação. O cumprimento da Sua missão na Terra foi coroado com a Ressurreição, selado com o abraço do Pai. Nada volta a ser como antes; uma vida nova irrompeu.

Outra bela imagem do amor infinito de Jesus por nós é o Seu lado trespassado. "Quando chegaram a Jesus, viram que já estava morto e, em vez de Lhe quebrarem as pernas, um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança; e logo saiu sangue e água" (Jo 19,33-34).

A devoção dos cristãos a Jesus na Cruz levou a profundas reflexões sobre o simbolismo deste texto. Os Padres da Igreja viram na água e no sangue sinais do Baptismo e da Eucaristia, os sacramentos fundadores da Igreja. Os escritores místicos identificaram a abertura no lado de Jesus como a revelação do Seu coração: "Através da ferida do Seu corpo, manifesta-se a ferida do Seu coração, este grande mistério de amor"[1]; o Senhor ressuscitado mostra o Seu lado "no qual estão contidas todas as riquezas da sabedoria e do conhecimento divinos, e o Seu coração ferido de amor por nós ainda antes de ser trespassado pela lança"[2].

Foi assim que surgiu e se desenvolveu uma espiritualidade do Coração de Jesus. O Coração de Jesus é um símbolo profundo do amor infinito que nos tem e de toda a Sua Pessoa que se entrega a cada um de nós. Jesus convida-nos a deixarmo-nos atrair para o mistério do Seu coração trespassado, este coração que pulsa de amor por nós até ao limite.

No nosso tempo, o símbolo do coração pode ser facilmente banalizado, reduzido a um símbolo de amor romântico muitas vezes passageiro. Recuperar a rica compreensão bíblica do significado deste órgão vital comunica algo muito profundo: o nosso coração é “a fonte e a raiz de todas as [nossas] outras potências, convicções, paixões e escolhas[3]. O coração é o nosso centro pessoal onde o amor, em última análise é “a única realidade que pode unificar tudo”[4]. No entanto, “o nosso coração não é autossuficiente; é frágil e ferido. [...] Precisamos da ajuda do amor divino. Recorramos, pois, ao Coração de Cristo, o centro do Seu Ser, que é uma fornalha ardente de amor divino e humano, a mais alta plenitude que a humanidade pode atingir. É aí, nesse Coração, que finalmente nos reconhecemos e aprendemos a amar[5].

Quanto precisamos de nos deixar transformar e de aprender a amar! Sair do nosso egocentrismo e orgulho inatos, abrindo-nos aos outros nas suas experiências de vida e necessidades, alegrias e tristezas, esperanças e medos. Jesus, "manso e humilde de coração" (Mt 11,29), enche o nosso sofrimento de sentido e permite-nos "carregar os fardos uns dos outros" (Gl 6,2).

Santa Rafaela Maria tinha uma grande devoção ao Coração de Jesus. Numa época em que as irmãs religiosas adotavam um nome diferente do civil, ela escolheu o nome "Maria do Sagrado Coração" para exprimir a sua identidade como Escrava do Seu Coração. Num momento difícil da sua vida, experimentou uma torrente de amor que vinha de Jesus em direção à sua alma, cuja força varreu todas as suas imperfeições e lhe deu uma grande força espiritual. Embora ao descrever este momento particular Rafaela não mencione a palavra "coração", parece ter sido certamente uma experiência de coração a coração. Encontrou sempre no Coração de Jesus consolação, perdão e ajuda para aprender o Seu modo de amar. Braços abertos, mente aberta, coração aberto…

Sentimo-nos atraídos pelo Coração de Jesus? Deixemos que Ele nos atraia para o Mistério… e vivamos a vida em plenitude.



[1] São Bernardo.

[2] Santo Alberto Magno

[3] Papa Francisco, Dilexit nos (Encíclica sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus), n. 9.

[4] Ibid., 10

[5] Ibid., 30.